Demência com corpos de Lewy

Por: Dra. Joana Azevedo Oliveira

A demência com corpos de Lewy é uma doença neuropsiquiátrica degenerativa que acarreta alterações cognitivas, psiquiátricas, motoras e autonômicas. Essa condição cursa com um parkinsonismo inicial, manifestando indícios clássicos como tremor, rigidez e dificuldade de deambulação. Diante disso, o paciente pode começar o tratamento para mal de Parkinson, mas, após cerca de um ano, surgem os problemas de memória e comportamento, que indicam um quadro de demência.

Os déficits na memória são semelhantes nos casos de demência de Lewy e Alzheimer, o que inclui esquecimentos relacionados a fatos recentes e prejuízos nas atividades do dia a dia. Contudo, na doença de Lewy, o paciente também pode ter alucinações. Agitação, comportamento mais agressivo, insônia (alterações no sono REM), hipotensão postural, incontinências urinárias e fecais são outras características condizentes com esse quadro.

Essa doença é subdiagnosticada e sua real prevalência pode ser maior do que consta nos registros. Isso se deve ao fato de que os critérios para o diagnóstico clínico ainda não estão bem delineados. Ainda assim, a demência de Lewy está entre as principais patologias desse grupo, sendo superada somente pelo Alzheimer.

Causas e fatores de risco

O aspecto patológico mais associado a esse tipo de demência é a presença dos corpos de Lewy, os quais correspondem à uma agregação anormal de proteínas sinápticas, como a sinucleína. Esse componente é encontrado tanto na demência de Lewy quanto na doença de Parkinson. A sinucleína é o principal marcador biológico do declínio cognitivo progressivo que ocorre nessas patologias.

Os corpos de Lewy se acumulam nas células do córtex cerebral — responsável pelas funções cognitivas, como percepção, atenção, memória, linguagem e funções executivas — e ocasionam a morte gradual dessas células.

A demência de Lewy também é marcada por alterações neuroquímicas, como redução nos níveis de dopamina, um neurotransmissor que atua, entre outras funções, na regulação das emoções. Também são observados déficits colinérgicos, sendo esse um sistema essencial para o funcionamento do sistema nervoso.

Entre os fatores de risco, consideram-se a idade avançada, o sexo masculino e o histórico familiar de doença de Parkinson ou de Alzheimer.

Sintomas

As manifestações clínicas da demência de Lewy são amplas e incluem comprometimento das funções cognitivas, sintomas psiquiátricos, neurológicos, motores e autonômicos. A sintomatologia abrange as seguintes categorias:

Sintomas cognitivos

As alterações cognitivas representam os sintomas mais precoces na demência de Lewy e incluem comprometimento nas seguintes funções:

  • atenção;
  • memória;
  • linguagem;
  • velocidade do processamento do pensamento;
  • funções executivas;
  • habilidades visuais e espaciais;
  • capacidade de resolução de problemas.

Sintomas psiquiátricos

Distúrbios psiquiátricos como ansiedade e depressão são comuns na demência de Lewy, bem como em outras patologias geriátricas. Nesse quadro, em específico, também podem ocorrer delírios e alucinações associados a um aumento na agitação e alterações comportamentais, incluindo conduta opositiva, agressividade e perturbações.

Sintomas relacionados ao sono

Em relação aos impactos no sono, o idoso com demência de Lewy pode apresentar: sonolência diurna excessiva; síndrome das pernas inquietas; transtorno de comportamento do sono REM — movimentação durante o sono, como se estivesse sendo atacado ou perseguido.

Sintomas motores

Os sintomas motores presentes na demência de Lewy são semelhantes aos do parkinsonismo, como tremor, rigidez, alteração da marcha (dificuldade na deambulação) e instabilidade postural.

Sintomas autonômicos

O paciente com demência de Lewy normalmente apresenta disfunções do sistema autonômico, o que inclui sintomas intestinais (constipação ou diarreia) e alterações urinárias (sensação de urgência, micção frequente e incontinência). Sintomas ortostáticos também são comuns e o paciente pode ter hipotensão postural, fraqueza, letargia e quedas.

Diagnóstico

O diagnóstico da demência de Lewy é clínico e depende de uma investigação bem aprofundada, assim como no acompanhamento de outras patologias geriátricas. Para tanto, o idoso passa por uma série de avaliações, que incluem:

  • Mini-Mental State Examination (MMSE), uma escala com 30 questões que avaliam o escore de comprometimento das funções cognitivas;
  • análise do estado emocional do paciente, quando há indícios de depressão;
  • avaliação das funcionalidades básicas, como vestir-se, ir ao banheiro, alimentar-se, entre outras;
  • avaliação da atividade instrumental, para verificar como é o dia a dia do idoso, quais atividades ele ainda consegue desempenhar sozinho, como usar o telefone, utilizar meios de transporte, preparar refeições, gerir as próprias finanças etc.

Também é feita a investigação de toda a história clínica do paciente, além da realização do exame físico. A quantidade de informações coletadas é grande, por isso, a consulta inicial com o médico especialista em geriatria costuma ser extensa.

A demência de Lewy pode demorar a ser diagnosticada, visto que no primeiro ano da doença, as manifestações clínicas são mais relacionadas ao parkinsonismo. Em muitos casos, o quadro é confirmado como demência associada à doença de Parkinson (DDP) — ambas as condições têm características clínicas e patológicas semelhantes, mas se desenvolvem com algumas distinções.

Tratamento

A demência de Lewy é uma condição de difícil tratamento, uma vez que relaciona diferentes classes de sintomas — cognitivos, psiquiátricos e parkinsonianos. Por vezes, os medicamentos destinados ao controle de algumas manifestações agravam o problema do outro lado. Por exemplo, os antiparkinsonianos podem precipitar delírios e alucinações, assim como os neurolépticos (antipsicóticos) podem aumentar os sintomas de parkinsonismo.

Nesse sentido, o tratamento é individualizado e depende da investigação detalhada dos principais sintomas manifestados por cada paciente. Com base nisso, é importante que seja feita um acompanhamento em parceria com profissionais de geriatria e psiquiatria.

Por se tratar de um quadro degenerativo, não há cura para a demência de Lewy. No entanto, o tratamento feito com o apoio multidisciplinar e com a participação e orientação adequada dos familiares e cuidadores pode chegar a resultados eficientes e promover mais qualidade ao dia a dia do paciente.