Depressão

Por: Dra. Joana Azevedo Oliveira

A depressão é um transtorno psicológico que pode afetar qualquer pessoa — mulheres, homens, crianças, jovens e idosos. Essa psicopatologia pode ser causada por fatores endógenos (predisposição biológica) ou exógenos (gatilhos ambientais) e os sintomas incluem tristeza profunda, perda de interesse ou prazer, apatia, desesperança, alterações no sono e no apetite, entre outros.

Em geriatria, a depressão é uma síndrome frequente e pode surgir como um quadro isolado ou associada a outras patologias geriátricas, como as demências. Mesmo os pacientes que nunca apresentaram episódios depressivos ao longo da vida podem se abater com as dificuldades do envelhecimento.

O tratamento reúne intervenção medicamentosa e psicoterapias e é feito em conformidade com os demais quadros clínicos do idoso. O papel da família também é essencial para fortalecer o suporte emocional do paciente e propor condições para que ele consiga seguir o tratamento corretamente.

Causas da depressão em idosos

A depressão pode ser de origem biológica ou representar um mecanismo reativo frente a situações difíceis. No primeiro caso, há componentes genéticos envolvidos, os quais tornam o indivíduo mais vulnerável a um desequilíbrio neuroquímico — alterações nos níveis de serotonina e noradrenalina —, havendo ou não fatores externos relacionados.

Já no caso das pessoas que não são biologicamente predispostas à depressão, o cérebro consegue modular melhor as emoções negativas e buscar estratégias de enfrentamento. Contudo, há situações que se sobrepõem aos reforçamentos positivos do dia a dia e comprometem a capacidade adaptativa do indivíduo, desencadeando uma depressão reativa.

Nesse sentido, vemos que há vários gatilhos para a depressão no envelhecimento, como:

  • vivências de luto — a tendência é perder cada vez mais pessoas próximas com o passar dos anos;
  • perda do papel social e das funções ocupacionais;
  • limitações decorrentes de doenças físicas;
  • perda de autonomia e dependência de cuidados;
  • sensação de invalidez;
  • arrependimentos e sentimento de ter chegado ao fim da própria jornada;
  • desestrutura familiar e recordação de traumas antigos;
  • excesso de proteção dos filhos ou abandono afetivo.

Visto assim, nota-se que na terceira idade há mais quadros de depressão por fatores externos do que por componentes genéticos. Em todo caso, a investigação detalhada do paciente idoso é importante para identificar os problemas associados aos sintomas depressivos.

Sinais e sintomas da depressão

Algumas manifestações da depressão em idosos são clássicas de um transtorno depressivo em qualquer idade, como alterações no sono e no apetite, desânimo, apatia, tendência ao isolamento e falta de interesse para realizar tarefas que antes eram prazerosas.

Por outro lado, alguns sintomas comuns de depressão podem não ser exteriorizados pelo paciente mais velho, a exemplo das crises de choro e do sentimento de angústia. Em geral, o idoso depressivo tem sinais menos exuberantes da doença, o que retarda a busca por ajuda médica, uma vez que as manifestações podem ser interpretadas como características normais do processo de envelhecimento.

Clinicamente, os sintomas que mais se destacam no idoso com depressão, em comparação com as pessoas mais jovens, são as queixas somáticas. Sendo assim, são frequentes os relatos de dores no corpo, dificuldades para dormir, perda de apetite e falta de energia para desempenhar quaisquer atividades.

Portanto, quando o idoso não demonstra mais interesse em participar de nada, nem mesmo quer realizar tarefas básicas da rotina, como comer ou tomar banho, os familiares precisam ficar atentos. Pode parecer que o quadro está evoluindo para uma demência, mas, muitas vezes, o paciente não tem mais força para viver. Nesses casos, um tratamento efetivo para depressão pode promover muitas melhorias na qualidade de vida do idoso.

Diagnóstico da depressão

A depressão e a demência são duas patologias de alta incidência em pacientes geriátricos. As duas condições impactam a saúde física e mental do idoso, interferem em seu funcionamento e declinam sua qualidade de vida. Comumente, os dois quadros encontram-se associados, ou a depressão pode simular um quadro demencial, sendo chamada de pseudodemência depressiva.

Nesses casos, é necessário estabelecer o diagnóstico diferencial, visto que inferências equivocadas podem alterar o curso do tratamento e da resposta terapêutica. Portanto, a interpretação dos sinais e sintomas constitui um desafio clínico, principalmente quando há comprometimento cognitivo.

O diagnóstico compreende avaliação clínica completa, exame físico e testes de rastreio, como a Escala de depressão geriátrica (Geriatric Depression Scale – GDS), que é o instrumento mais popular para avaliação de sintomas depressivos em idosos, tendo sido a única desenvolvida para esse grupo etário.

Seu entendimento é simples, com respostas dicotômicas do tipo sim/não e de rápida e fácil aplicação. Observar as diferenças entre os quadros depressivos e demenciais é fundamental para a conclusão do quadro. Por exemplo, na demência o humor é flutuante e na depressão é persistentemente baixo. O comprometimento cognitivo também é mais evidente na demência do que na depressão.

Outra diferença perceptível é o nível de cooperação durante a avaliação. Mesmo com dificuldades cognitivas, os pacientes com demência demonstram prontidão para responder às perguntas do médico, enquanto os deprimidos podem ser hostis e desinteressados. Contudo, ainda que seja feita uma anamnese minuciosa, nem sempre é possível afirmar se o caso se enquadra em demência ou depressão.

A avaliação neuropsicológica pode apontar resultados importantes. O mini exame do estado mental, Mini-Mental, é amplamente aplicado para avaliar o grau de comprometimento cognitivo dos quadros demenciais, mas não apresenta a sensibilidade necessária para diagnosticar os casos de depressão.

Até o momento, não existem testes específicos para distinguir depressão e demência, mas a ferramenta Addenbrooke’s Cognitive Examination – Revised (ACE-R) tem sido estudada e positivamente considerada para o diagnóstico diferencial da depressão em idosos.

Outros recursos podem ser úteis diante de incerteza diagnóstica — embora não sejam utilizados na prática diária das avaliações em geriatria — como a realização de um eletroencefalograma que pode apontar alterações nos casos de demência. Da mesma forma, pode ser feita a prova terapêutica com antidepressivos, que podem evocar respostas favoráveis em pacientes com depressão e, assim, confirmar o quadro.

Possibilidades de tratamento para a depressão

A depressão é uma das principais síndromes geriátricas, portanto, apesar do caráter psiquiátrico, a intervenção medicamentosa é prescrita pelo próprio especialista em geriatria — principalmente porque o profissional já faz a avaliação global do paciente, conhece suas comorbidades e sabe quais medicamentos podem ser utilizados com efeitos colaterais favoráveis ao seu quadro geral.

Somente casos com sintomas muito específicos são encaminhados ao psiquiatra, o que também vale para manifestações de outras especialidades, como cardiologia, endocrinologia etc.

O acompanhamento terapêutico com um psicólogo também é essencial no tratamento da depressão do idoso. O profissional consegue identificar gatilhos, resgatar traumas e outras informações que estejam contribuindo para a doença, além de ajudar o paciente a desenvolver estratégias de enfrentamento.

Assim, unindo o atendimento geral em geriatria ao tratamento medicamentoso e ao acompanhamento psicológico, é possível promover uma melhora no bem-estar físico e mental do paciente e prevenir o agravamento do quadro de depressão.